Ataque de Froome na etapa 19 do Giro da Itália foi cuidadosamente arquitetado pelo Team Sky

Perfil da etapa analisado pela Sky.
Saiba como!

Chris Froome já venceu quarto edições do Tour de France, fez muitos ataques incríveis nas subidas, nas descidas e até mesmo no plano, como quando, na etapa 11 do Tour de France de 2016, atacou junto com Sagan, Bodnar e Thomas para conseguir colocar alguns poucos segundos a mais de vantagem sobre seus adversários diretos. 

Mas, um ataque a 80 Km do final, para vencer solo, tirando mais de 3 minutos de defasagem que tinha até então e assumindo a liderança geral da prova no final da etapa é algo raro, talvez sem precedentes no ciclismo moderno (tirando o ataque de Floyd Landis, no Tour de 2006, que tem sido citado, mas que foi descoberto depois que foi impulsionado pelo uso de testosterona).

O ataque solo de Froome faz lembrar dos longos ataques recentes de Alberto Contador, mas mesmo o Pistoleiro, quando fez ataques assim, sempre se uniu a outros ciclistas que já estavam na frente da prova. Froome partiu sozinho e não havia ninguém na sua frente, algo assustador e que estaremos falando e lembrando durante muito tempo.

Outro ataque recente e que podemos citar foi o de Philippe Gilbert no Tour de Flanders de 2017 quando, faltando a 55 Km para a chegada, ele partiu sozinho e nunca mais foi visto. Mas era uma prova de um dia, diferente do que vimos aqui.

O ataque, com mais de 80 km do final, aconteceu depois de 18 etapas, sendo que, nas duas primeiras semanas, Froome sofreu e perdeu tempo em várias etapas.

Mas algo chamava a atenção: nas entrevistas pós etapas, além de Froome, seus companheiros e técnicos, demonstravam, sim, preocupação, mas sempre deixavam claro que eram 3 semanas de prova e que acreditavam na reviravolta e na melhora da forma física de seu capitão.

Por conta disso, havia uma grande duvida no ar sobre as condições reais de Froome e quando seus companheiros de equipe aumentaram o ritmo logo no pé da mais longa subida do dia, a escalada do Colle delle Finestre, na penúltima etapa de disputa do Giro 2018, a surpresa foi grande. Conseguiria Froome aproveitar do trabalho de seus companheiros?

A resposta veio logo depois. Froome atacou no pior momento da escalada, praticamente na metade dela, onde a subida é feita em uma estrada de cascalho com 9% em inclinação média.

Chris Froome pouco antes de seu ataque, já na parte de cascalho, no Colle delle Finestre. Photo: Tim de Waele/Getty Images

Alberto Contador, que hoje trabalha como comentarista da Eurosport Espanha, no momento do ataque se surpreendeu pela distância, mas depois percebeu que era o que deveria ser feito. Talvez só não acreditasse que Froome assumiria a Maglia Rosa no final da etapa.

As reações sobre o que aconteceu foram diversas, já que, se por um lado, é ruim para o ciclismo já que Froome está sofrendo uma investigação de doping, por outro lado, é bom para o esporte ver uma etapa tão emocionante, com um objetivo tão ambicioso e que no final foi alcançado.

O público italiano bem que tentou, mas nada tirava a concentração de Froome.

Muitos só conseguiram comparar o ataque de Froome com o que faziam Eddy Merckx e Fausto Coppi, não apenas por vencerem sozinhos seus adversários, mas pela quantidade de tempo colocado em cima deles, o que é muito raro acontecer.

Reconhecimento

Agora, o que muitos dos que assistiram a etapa ou que ficaram sabendo do que aconteceu não sabem é que, além de conhecerem muito bem a etapa, houve um dedicado estudo sobre como fazer para que tudo aquilo fosse possível. Não foi algo que aconteceu ao acaso, após perceberem que o então líder da prova havia sobrado.

“Estivemos aqui no Finestre no ano passado. Eu conhecia a subida e isso realmente ajudou. Percebi que enfim estava em boa forma e só foquei em fazer o que deveria ser feito. Escalar o Finestre e ir em frente.”, disse Froome após a etapa.

“Foi um pouco arriscado pra ser sincero, mas foi calculado também.”, continuou.

Articulando o plano

No dia anterior, o então líder geral do Giro da Itália, Simon Yates, pela primeira vez havia demostrado que poderia não estar na mesma forma das duas primeiras semanas de disputas, perdendo 28 segundos no final da etapa 18.

“Vimos ontem, pela primeira vez, que Simon estava um pouco vulnerável e isso nos ajudou.”

Foi logo depois da etapa 18 que Froome se reuniu com Dave Brailsford (chefe da equipe Sky) para articularem um plano incrível e tentar um ataque que pudesse recolocar Froome na briga pela geral do Giro da Itália. Até então ele estava a mais de 3 minutos da liderança da prova, em quarto lugar.

Dave Brailsford revelou, ao site inglês Cycling Weekly, o nível do planejamento que foi feito para o ataque solo de Chris Froome na escalada do Finestre, onde, até mesmo ele, Brailsford, foi para a beira da estrada entregar comida e bebida para Froome.

Froome nas partes mais altas do Finestre com o carro da organização e o da Sky logo atrás.

Após conseguirem executar o planejado, Brailsford contou que o que acabara de acontecer só foi possível porque houve um grande planejamento da equipe, que envolveu praticamente todos os funcionários que estavam na Itália. Porém, jamais foi esperado que Froome assumisse a Maglia Rosa, a ideia era diminuir o tempo para os adversários.

“Passamos o dia todo ontem dissecando a etapa e o plano sempre foi para que ele conseguisse algo nesse trecho, o Finestre seria a escalada decisiva”, disse Brailsford depois da etapa.

Clique aqui para ver a imagem em alta resolução do planejamento da etapa feita pela equipe Sky.

“Nós pensamos que poderia ser um pouco longe demais, mas você tem 27 hairpins (curvas muito fechadas) na parte de baixo da montanha. Foi ali que decidimos que seria a hora de começar a fazer força e tornar as coisas realmente difíceis.”

“Quando isso acontece e alguém não está em um bom dia, então certamente ele vai pagar por isso. E quando vimos Simon Yates sobrando, isso nos deu ainda mais moral para passar ao estágio 2 da estratégia que era de nos livrar também do Dumoulin. Resolvemos manter o ritmo e voltar a fazer mais força na parte de cascalho, na segunda metade da montanha.”, continuou Brailsford.

Veja aqui o boletim completo sobre a etapa 19 do Giro da Itália.

Uma vez decidido onde seria desenvolvido o plano, Brailsford, Froome e a equipe tiveram que considerar como iriam alimentar o ciclista de 33 anos durante a épica fuga.

Froome durante sua jornada que durou mais de 2h30min

E foi aí que o plano se tornou mais complexo e envolveu vários funcionários da equipe – incluindo mecânicos, assessor de imprensa e Brailsford que acompanhava de perto o atleta durante todo o percurso  e certificava-se que Froome recebia comida e bebida exatamente quando precisava, durante seu esforço gigantesco.

Organização e execução

Portanto, o principal, além do próprio ataque, foi a organização da equipe para a alimentação e hidratação de Froome durante todo o percurso.

“Todos os membros da equipe, inclusive eu, estavam do lado da estrada para colocar em prática uma estratégia de abastecimento que nos fizesse acreditar que ele não quebraria de fome.”

“Segmentamos o percurso e imaginamos quanto de energia ele gastaria em cada trecho. Depois calculamos o quanto ele conseguiria recolocar de volta. E, a partir daí, definimos onde ele precisaria comer e se hidratar.”, explicou Brailsford.

“Agora, conhecimento é uma coisa, mas é na prática que as coisas acontecem. Felizmente tudo deu certo, a equipe se saiu muito bem hoje e fez acontecer. Todos fizeram um trabalho fantástico e ele nos entregou o seu melhor.”

Froome, após a etapa, estava muito satisfeito, principalmente por, enfim, ver a sua forma voltar. Também estava surpreso com a conquista da Maglia Rosa, após conseguir descontar e colocar tempo em Dumoulin.

Era evidente o sofrimento de Froome.

“A equipe trabalhou muito por mim, eles fizeram a prova ser muito difícil na parte inicial do Finestre. O começo da etapa também, eles estavam atacando e tornando tudo bem difícil para todos.”, acrescentou Froome.

Dados: os primeiros 50 quilômetros da etapa eram praticamente subindo (veja gráfico abaixo). Mas a velocidade média, próxima ao início do Finestre, era de quase 38 Km/h.

Altimetria da etapa. O local do ataque de Froome foi na parte cinza clara da segunda escalada.

“Foi a situação perfeita para mim. Sentia que, se eu conseguisse abrir no Finestre, talvez não tentassem me seguir inicialmente, por estar muito longe. Entrei no modo contra-relógio e tentei administrar o esforço, então não fui ao limite total.”, finalizou Froome.

“Não tínhamos nada a perder. Estávamos em quarto na geral e muito tempo atrás”, disse o chefe do Team Sky, David Brailsford.

A equipe Sky comemorou em dose dupla no final da etapa.

“Você não sabe se vai funcionar ou não, só descobre se tentar. Chris estava entrando em forma e nós apenas pensamos: vamos endurecer as coisas e ver o que acontece”.

Froome foi o primeiro britânico a vencer o Giro d’Italia.

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