Tour de France 2019: A batalha dos heróis das terras altas da Colômbia

Saiba como!

Por Christian Gaviria, direto da Colômbia.

“Na Colômbia, você sacode uma árvore e os ciclistas caem”, disse, certa vez, um treinador esportivo do país, em meio à empolgação de mais um grande triunfo dos ciclistas de seu país.

Apesar dessa afirmação ser um exagero ela encontra fundamento no aumento do número de vitórias de ciclistas colombianos em provas do mais alto nível mundial ao longo dos últimos sete anos: Giro d’Italia, Vuelta a España, três vitórias no Tour de l’Avenir, três segundos lugares no Tour de France, dois Tirreno-Adriatico, dois Paris-Nice, Giro di Lombardia, mencionando apenas os mais importantes.

A atual geração de ciclismo colombiano é uma safra de ciclistas de diversos estilos e especialidades, de escaladores clássicos como Miguel Angel Lopez, Winner Anacona e Darwin Atapuma, aos mais versáteis como Rigoberto Uran (duas vezes segundo lugar no Giro d’Italia e uma vez no tour de France, além de medalha de prata na prova de estrada das Olimpíadas de Londres 2012), até velocistas como Fernando Gaviria e mais atualmente Álvaro José Hodeg.

ciclistas colombianos
Da esquerda para direita, de cima pra baixo: Quintana, Bernal, Urán, Gaviria, Martinez e Atapuma. Apenas alguns dos grandes ciclistas que estão desfilando no pelotão World Tour.

Neste esquadrão de primeira classe, dois ciclistas se destacam como candidatos para vencer a atual edição do Tour de France: Nairo Quintana e Egan Bernal.

Nairo Quintana e Egan Bernal em ação.
Nairo Quintana e Egan Bernal em ação.

Ciclismo colombiano e a construção de mitos!

Desde tempos mitológicos, antes da invasão dos espanhóis, as terras ancestrais, dos povos muíscas na Colômbia central, foram divididas em dois reinos: Hunza da zona norte, cujo soberano era o Zaque, e a Bacatá da zona sul, cujo soberano era o Zipa. Ambas as confederações situavam-se nas terras altas dos atuais departamentos de Cundimarca e Boyacá (Altiplano cundiboyacense) na região central da Colômbia. Zipa era considerado descendente da deusa Chie (a Lua), da mesma maneira que o Zaque era considerado descendente de Sua (o Sol).

Antigo povo Muisca, da Colômbia.

Do território Zaque compreendiam: Sorata, Machetá, Tenza, Tibirito, Lenguazaque, Turmequé, Ramiriquí (nome da aldeia natal de Juan Mauricio Soler, ex-campeão da montanha no Tour de France 2007), e sua sede em Hunza (atualmente Tunja, cidade sede dos campeonatos nacionais de ciclismo da Colômbia em 2016 e a próxima edição do Tour da Colômbia em 2020).

E do território Zipa compreendia a região que hoje é conhecida como a savana de Bogotá, que inclui as cidades de Chía, Cajicá, Soacha, Cota, Zipaquirá, La Calera, Sopó, Sesquilé, bem como Guatavita, onde está localizado lendário lago Guatavita. Diz uma lenda do povo muísca, que ali eram realizados os rituais dos líderes Zipas, nos quais eles cobriam o corpo com ouro em pó e mergulhavam no lago. A população, como forma de oferenda, atirava joias e pedras preciosas no lago. A lenda conhecida como a cerimônia de El Dorado pode ser conhecida através do vídeo abaixo:

O surgimento de uma liderança

A Colômbia sempre foi berço de grandes ciclistas, mas o primeiro que realmente chamou atenção do mundo, nasceu a cerca de 150 quilômetros ao norte de Bogotá, no território dos antigos Zaques, no dia 4 de fevereiro de 1990, em Tunja, Boyacá. Nairo Quintana, que sobreviveu a uma condição gastrointestinal delicada quando ainda era um bebê, quando jovem, percorria cerca de 20 quilômetros de casa para a escola em uma bicicleta da ferro (não pela pobreza, mas por determinação), através do Alto Branco. As vezes amarrava a bicicleta de sua irmã para ajudá-la a subir a serra.

O Alto Branco, é uma subida de 2ª Categoria. São 9,8 Km com 4,8% de média, alguns pontos de descanso e máximas de 12%.

Certo dia Nairo chegou em casa e começou a contar ao pai que ele superava na subida os ciclistas que treinavam ali e que contavam com bicicletas muito melhores que as dele.

Nairo Quintana durante o Giro da Itália 2014, quando foi o campeão.

Hoje, em seu currículo títulos em Giro e Vuelta, três pódios no Tour, mais classificação de montanha e melhor jovem, o levam a condição de atual líder da bonança ciclística das terras altas colombianas.

Onde os ciclistas viram monstros

A cidade de Zipaquira, a 25 km de Bogotá, tem uma das mais difíceis escaladas curtas ou “paredes” da Colômbia: a muralha de Zipa. O muro tem um quilômetro de extensão e 14,5% da inclinação média com um máximo de 22%. Tudo a mais de 2600 metros de altitude. Foi lá onde nasceu o primeiro campeão da Volta à Colômbia em 1951, Efraín “El Zipa” Forero. Em seu livro Rei das Montanhas: Como os Heróis do Ciclismo da Colômbia mudou a história da sua nação, Matt Rendell conta como, em Outubro de 1950, a pedido de Enrique Santos Castillo, presidente da Associação Nacional de Ciclismo e editor do jornal El Tiempo (também pai do Ex-presidente da Colômbia), “El Zipa” Forero aceitou o desafio de demonstrar que fazer a Volta a Colômbia em estradas de terra não pavimentadas era um empreendimento fisicamente possível.

Efraín “Zipa” Forero, primeiro campeão da Volta a Colombia.

A rota seleccionada foi Bogotá-Manizales: uma percurso épico que começava a 2600 m de altitude, descia para o vale do rio Madalena a apenas 320 metros acima do nível do mar, até Honda, com clima de calor úmido, depois subia novamente a 3670 metros, tudo isso em uma única etapa pelo ramo central dos Andes, chamada de “Paramo de Letras” (uma das passagens de montanha mais longas do mundo) para chegar a Manizales após uma breve descida. O Zipa conta que devido à lama pesada nas estradas, o caminhão que o acompanhou em sua viagem teve que parar em uma colina íngreme na cidade de Pádua, conseguindo chegar a apenas duas horas mais tarde, em Manizales. Quando o motorista do caminhão disse a população local que El Zipa havia chegado de bicicleta, vindo de Bogotá, eles não acreditaram a princípio, mas quando perceberam que era verdade, ergueram Forero nos ombros e organizaram um desfile por toda a cidade.

Efraín “el Zipa” Forero, durante a primera Volta a Colombia. Foto: El Tiempo.

Zipaquirá é também a cidade onde reside Egan Arley Bernal, de 22 anos e natural de Bogotá. Como Nairo, Egan começou a pedalar graças ao apoio de seu pai, Germán. Primeiro competiu de MTB (esporte em que a Colômbia conseguiu um quinto lugar com Jhonnatan Botero nos Jogos Olímpicos no Rio 2016), onde conquistou prata e bronze no Campeonato Mundial na categoria júnior em 2014 e 2015.

Bernal quando competia de Mountain Bike

Atualmente, quando está na Colômbia, Egan normalmente treina nas montanhas da floresta andina alta (mais de 2500 metros acima do nível do mar) em torno da cidade de Bogotá em três dos seus quatro limites cardeais:

Sul – Alto de Mondoñedo, Alto de Rosas.

Leste – Alto de los Patios, Alto de La Cuchilla

E oeste – Alto del Vino

Egan Bernal com apenas 22 anos é um dos líderes da Team Ineos no Tour de France 2019.

Os desafios que enfrentam aqueles que treinam nessas montanhas não são fáceis: são inúmeras rampas íngremes, subidas constantes e sem descanso, vento gelado, névoas, como não poderia deixar de ser, sempre nas grandes altitudes colombianas. É uma forja de fundição perfeita para grandes campeões. Nos últimos anos de sua carreira Fausto Coppi “Il Campionissimo”,  depois de visitar algumas dessas montanhas durante a sua visita em 1957, disse: “A Colômbia deverá ter grandes escaladores”.

Os colombianos Daniel Felipe Martínez (23), Angel López (25) e Iván Ramiro Sosa (21)

Com apenas 19 anos de idade e depois de só cinco meses na estrada, Egan foi coroado campeão de jovens no Giro del Trentino. Medalhista de prata e bronze na categoria júnior durante o Mundial de MTB 2014 e 2015, Bernal foi contratado por quatro anos pela Androni (incomum para o mercado europeu) e designado a liderar a equipe (talvez o mais jovem em uma corrida categoria de elite) no Giro del Trentino.

Na etapa rainha do Giro del Trentino ele conseguiu chegar em nono a apenas 10 segundos do vencedor, Tanel Kangert. Em 2016, Bernal marcou sua primeira vitória profissional no Tour de Bihor na Roménia, depois de vencer a primeira etapa com a ajuda de seu companheiro de equipe, Rodolfo Torres, ciclista da tristemente extinta Team Colômbia:

A imagem lembrou uma recordação da imagem mítica de Greg Lemond e Bernard Hinault, ao cruzarem a linha juntos no Alp d’Huez em 1986.

Segundo declarações do seu gestor Gianni Savio ao diário Marca, Egan atingiu, em testes de consumo máximo de oxigénio (VO2 máx), uma medida da capacidade de produzir energia ponderando o peso, o valor de 88,8 mililitros por quilo (alguns testes mais recentes alcançam 90 e 91!).

Froome registrou 88,2 no 2015 e 84,6 em 2017. Induráin atingiu 92. Nairo registrou 86 no início de sua carreira. Assumindo que este indicador tende a melhorar com treinamento e maturidade física do ciclista, tudo leva a crer que ele tem um brilhante caminho a ser percorrido.

Depois de ser transferido da Androni para a Team Sky (agora Team INEOS), após o pagamento de uma compensação financeira, Egan já foi coroado campeão do Tour da Califórnia, Tour Colombia 2.1, da Paris-Nice, foi campeão nacional de contra-relógio e, mais recentemente, do Tour da Suíça, além de ter sido um gregário de luxo para Chris Froome e Geraint Thomas no Tour de France de 2018! Impressionante!

Bernal com Geraint Thomas durante o Tour de France 2018.

Surge um novo líder

Vinte anos antes da chegada dos espanhóis, Saguanmachica, Zipa do Bogotá, conseguiu derrotar, em batalha, o líder Zaque, consolidando seu domínio. E agora fica a pergunta: será que o jovem Egan Bernal foi o escolhido para ser o novo monarca do altiplano e herdeiro do indomável “Zipa” Forero?

A verdade é que o tempo e os deuses da montanha que decidirão, e nós estamos aqui para testemunhar tudo isso.

Este artigo foi escrito por Christian Gaviria com correções e adaptações de Digital Cycling.